Desafios no manejo da fibrose cística em adultos
Desafios no manejo da fibrose cística em adultos
Autora: Samia Zahi Rached
Médica da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Caso Clínico:
Paciente 21 anos, sexo masculino, casado, desempregado, natural e procedente de São Paulo
Queixa Principal: Exacerbações pulmonares frequentes
História Moléstia Atual:
- Paciente portador de Fibrose Cística (FC), refere que nos últimos 6 meses apresentou 4 exacerbações, sendo 1 internação.
- Exacerbações caracterizadas por piora da tosse e aumento da expectoração, com coloração amarela / esverdeada. Piora da dispneia associada com alguns episódios de chiado.
- Entre crises, mantendo mMRC 0 e tosse produtiva em moderada quantidade. Perdeu 2 kg em 6 meses.
Antecedentes Pessoais:
- Diagnóstico de fibrose cística (FC) ao nascimento (mutações F508del e S4X), transferido da equipe pediátrica aos 18 anos.
- Acometimento pulmonar, sinusopatia, insuficiência pancreática exócrina
- Infecção crônica das vias aéreas por Pseudômonas aeruginosa e Staphylococcus aureus sensível à meticilina .
- Tratou Aspergilose broncopulmonar alérgica (ABPA) dos 17 aos 18 anos com prednisona.
- Epilepsia
- Nega tabagismo, etilismo ou uso de drogas ilícitas
Medicações em uso: dornase alfa, tobramicina inalatória em meses alternados, enzimas pancreáticas, vitaminas ADEK, suplementos nutricionais. Faz higiene brônquica diariamente.
Exame Físico: Bom estado geral, corado, hidratado, eupneico e afebril.
PA = 110x60mmHg FC = 96bpm FR = 30ipm SpO2 = 96% em ar ambiente, Peso 54 kg, altura 1,57m, IMC 21,9 kg/m2
Murmúrio vesicular presente bilateralmente com roncos e estertores crepitantes difusos.
Bulhas cardíacas rítmicas, normofonéticas, sem sopros.
Abdome flácido, escavado, indolor a palpação, sem visceromegalias palpáveis. Membros inferiores sem edema ou empastamento de panturrilhas.
Presença de baqueteamento digital.
| CVF (%predito) | VEF1 (% predito) | VEF1/CVF | |
| Out/ 2014 | 2,65 (74%) | 2,36 (70%) | 0,89 |
| Jun/ 2015 | 1,78 (48%) | 1,54(45%) | 0,87 |
![]() |
Questão 1: Considerando a história clínica, exame físico e alterações funcionais e tomográficas, qual a principal hipótese diagnóstica?
- Progressão de doença
- Micobacteriose atípica
- Desnutrição
- Aspergilose broncopulmonar alérgica
Comentário/justificativa:
Diante de exacerbações freqüentes em paciente com FC devemos sempre investigar por possíveis novas infecções, ABPA, diabetes, desnutrição, má adesão, entre outros.
A ABPA tem alta prevalência em FC e cursa com quadro clínico de chiado, dispnéia e exacerbações. Considerando o quadro clínico de nosso paciente e o passado recente de ABPA, devemos iniciar nossa investigação por esta hipótese solicitando inicialmente nova dosagem de Imunoglobulina (Ig) E.
| ABPA em FIbrose Cística |
| Critério Diagnóstico Clássico: |
– Deterioração clínica
– RAST ou prick test positivo
– IgE > 1000 kU/I
– Sorologia ou preceptinas positivas
– Rx de tórax alteradoRastreamento: dosagem de IgE anual
– IgE > 500 kU/I: RAST ou prick test
– IgE < 500 kU/I: repetir IgE a depender da clínica
SEGUIMENTO DO CASO:
INVESTIGAÇÃO REALIZADA PARA ABPA:
| Critérios para ABPA | |
| Imunoglobulina E | 828 UI/ mL (dosagem há 10 meses: 269 UI/mL) |
| Eosinófilos | 625 /mm3 |
| Cultura de escarro | Positiva para Aspergillus fumigatus |
| IgE específica para Aspergillus | Classe 3 (alto) |
| Sorologia para Aspergillus | Positiva |
Questão 2: Qual a principal medicação a ser consideradas no tratamento da ABPA?
- a) Itraconazol
- b) Corticoide inalatório
- c) Prednisona oral
- d) Omalizumabe
- e) Anfotericina inalatória
Comentário/justificativa:
O principal tratamento para ABPA é corticoesteróides. O objetivo é suprimir a resposta inflamatória provocada pelo fungo. A Cystic Fibrosis Foundation considera como primeira linha o uso de prednisona 0,5 – 2mg/kg/dia por 1 a 2 semanas, com desmame progressivo por 2 a 3 meses.
Diversos estudos avaliaram a associação de antifúngico para diminuição da colonização pelo Aspergillus, com redução do uso de corticóide. É recomendado para pacientes dependentes de corticoesteróides ou que apresentam relapso. O principal utilizado é o itraconazol.
Em casos com resistência ao tratamento mesmo com anti fúngico, pode-se considerar terapias adjuvantes como pulsoterapia com corticoesteróides, corticoide inalatório, omalizumab ou ainda anfotericina inalatória.
SEGUIMENTO DO CASO:
Considerado a hipótese de aspergilose broncopulmonar alérgica (ABPA), iniciado prednisona 40mg/dia e itraconazol 400mg/dia com melhora clínica e redução do número de exacerbações.
| CVF (%predito) | VEF1 (% predito) | CVF/VEF1 | |
| DIAGNÓSTICO DE ABPA | 1,78 (48%) | 1,54(45%) | 0,87 |
| Após 6 meses de tratamento | 2,53 (66%) | 2,51 (71%) | 0,99 |
Após 8 meses de tratamento do início do tratamento da ABPA, cultura de vigilância de escarro revelou crescimento de Mycobacterium abscessus. Paciente apresentava-se estável, sem novas queixas clínicas. Repetida função pulmonar com nova queda dos volumes pulmonares.
| CVF (%predito) | VEF1 |
(% predito)CVF/VEF1Apos 6 meses de tratamento para ABPA2,53 (66%)2,51 (71%)0,99Surgimento de MNT1,40 (36%)1,40 (39%)1,00
Questão 3: Qual a conduta a ser tomada neste momento?
- Iniciar tratamento para Mycobacterium abscessus
- Como paciente assintomático, apenas observação clínica.
- Nova tomografia e colher novos escarros para cultura de micobactérias.
- Encaminhar o paciente para transplante pulmonar.
Comentário/justificativa:
Micobacteriose não tuberculosa é uma complicação frequente na FC, e pode ser predisposta por terapia imunossupressora como a prednisona utilizada para a ABPA. O Mycobacterium abscessus é potencialmente patogênico e deve ser investigado. Apesar de nosso paciente não relatar piora clínica, houve queda de função pulmonar. A investigação deve incluir nova tomografia (imagem abaixo – houve piora tomográfica neste caso também), além de novos escarros. Caso não se confirme com nova amostra de escarro, considerar broncoscopia com lavado broncoalveolar e biópsia.
Tomografia ao diagnóstico da ABPA:
![]() |
![]() |
Tomografia quando surge a cultura positiva para micobactéra:
| Critérios diagnósticos para Micobactérias não tuberculose |
| Clínicos (obrigatório a presença dos 2 critérios) |
– Sintomas respiratórios, cavidades /nódulos/ bronquiectasias em radiologia;
– Exclusão adequada de outros diagnósticosMicrobiológicos (apenas 1 critério)
– Ao menos 2 culturas de escarro positivas;
– Cultura de lavado broncoalveolar positiva;
– Cultura de material de biópsia positiva
SEGUIMENTO DO CASO:
Realizado lavado broncoalveolar por broncoscopia que confirmou o achado de Mycobacterium abscessus. Iniciado tratamento ambulatorial com claritromicina, levofloxacino e tobramicina inalada sem sucesso tendo sido optado por antibioticoterapia prolongada em nível domiciliar com gentamicina endovenosa, levofloxacino e claritromicina.
Discussão: A população adulta com FC apresenta alguns desafios no seu manejo tais como complicações mais graves e associações de comordidades. Apresentamos um caso com diagnóstico definido de ABPA e boa resposta terapêutica ao tratamento, porém com dependência de prednisona em doses altas. Durante sua evolução, houve concordância da piora clínica e funcional com a identificação de M. abscessus. A micobacteriose não tuberculosa é uma complicação frequente na FC, porém a terapia imunossupressora associada a alterações estruturais das vias aéreas decorrentes da ABPA devem ser considerados fatores predisponentes neste caso. Desta forma, salientamos a importância do atendimento sistemático do paciente com FC adulto, enfatizando a necessidade de realização de exames de vigilância assim como atenção para as possíveis complicações inerentes a esta faixa etária e respectivos tratamentos.
1 Griffith, D. E. et al. An official ATS/IDSA statement: diagnosis, treatment, and prevention of nontuberculous mycobacterial diseases. Am J Respir Crit Care Med 175, 367-416, doi:10.1164/rccm.200604-571ST (2007).
2 Kousha, M., Tadi, R. & Soubani, A. O. Pulmonary aspergillosis: a clinical review. Eur Respir Rev 20, 156-174, doi:10.1183/09059180.00001011 (2011).
3 Stevens, D. A. et al. Allergic bronchopulmonary aspergillosis in cystic fibrosis–state of the art: Cystic Fibrosis Foundation Consensus Conference. Clin Infect Dis 37 Suppl 3, S225-264, doi:10.1086/376525 (2003).
🔒 Conteudo restrito somente para associados.




