No Dia Nacional da Doação de Órgãos, a SBPT reforça a importância deste ato de solidariedade que salva vidas
No Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, o Brasil reforça a importância desse gesto solidário que pode transformar a dor em esperança e salvar múltiplas vidas. A data tem como objetivo conscientizar a sociedade sobre a relevância da doação e estimular cada vez mais famílias a autorizarem esse ato de amor, capaz de oferecer uma nova oportunidade a quem aguarda na fila por um transplante.
Neste contexto, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) traz uma entrevista especial com o cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, Dr. José de Jesus Camargo, que é referência mundial e pioneiro no transplante de pulmão na América Latina.
Ao longo de sua trajetória, dedicou-se a transformar a vida de pacientes com doenças graves por meio dos transplantes e contribuiu para consolidar o país no cenário internacional da medicina.
Nesta entrevista, ele compartilha as motivações que o levaram a se dedicar à área, relembra momentos históricos e fala sobre os desafios e avanços que ainda estão por vir no campo dos transplantes.
O que o motivou a se dedicar aos transplantes de pulmão?
A reminiscência mais antiga remonta ao segundo ano de residência, quando encontrei numa gaveta do consultório do meu Mestre um jornal de 1967, que relatava a realização do primeiro transplante de coração, na África do Sul. Quando quis saber dele por que guardara aquele jornal, ele disse muito sério: “Porque nós ainda vamos transplantar o pulmão”. O projeto me pareceu delirante, mas o “nós ainda vamos” teve um impacto fantástico porque, até então, eu não tinha nenhuma certeza de que continuaria no Serviço, e aquela frase me incluía no futuro.
Num segundo momento, já trabalhando como cirurgião de tórax, dois fatores foram estimulantes dessa iniciativa: a impotência diante de pneumopatas crônicos e a descrição dos primeiros resultados bem-sucedidos do transplante pulmonar em Toronto.
Como foi a experiência de realizar o primeiro transplante de pulmão da América Latina?
Foi um trabalho meticuloso que exigiu, para começar, a preparação de uma Unidade de Terapia Intensiva minimamente compatível com a magnitude do procedimento. Como experiência profissional foi inesquecível porque, do ponto de vista técnico, tínhamos feito uma preparação adequada em laboratório e nos sentíamos seguros, mas pesava sempre a certeza de que, depois dessa aventura rumo ao desconhecido, nunca mais seríamos os mesmos, para o bem ou para o mal. Essa sensação provocava um medo natural e a sensação de que só não paralisamos pela quantidade de adrenalina circulante.
E, antes de tudo, tínhamos um homem jovem, 27 anos, pai de dois filhos pequenos, que só sairia do hospital se fôssemos capazes de substituir o seu pulmão destruído. Aliás, ele se revelou o candidato ideal pelo somatório de coragem, determinação de viver e confiança, muita confiança. Foi, sem dúvida, um grande privilégio tê-lo como primeiro paciente.
Quais foram os maiores desafios enfrentados naquele momento histórico?
Mais do que tudo, a inexperiência com o procedimento em humanos e a consciência de que a nossa terapia intensiva era precária em comparação com as melhores UTIs dos hospitais de referência no exterior. Vendo retrospectivamente, não tínhamos nenhum dos recursos mais sofisticados de suporte hemodinâmico que hoje usamos como rotina e estávamos limitados a três drogas antirrejeição, de modo que, se o paciente se revelasse precocemente um rejeitador, as chances de sobrevivência eram escassas.
Talvez amparados pela sorte de principiantes, conseguimos que nove dos nossos dez primeiros transplantes deixassem o hospital em boas condições. Isso naturalmente significou um grande estímulo para a continuidade do programa.
O que significa para o senhor ver a vida de tantas pessoas transformadas pela doação de órgãos?
Acompanhar a vida de pacientes vivendo no limite de sofrimento e conseguir reabilitá-los para a vida normal é, para mim, a melhor sensação que já experimentei sendo médico.
Qual mensagem o senhor deixaria para as famílias que, em meio à dor, decidem doar?
Uma história curta pode responder bem a essa pergunta: há muitos anos, enquanto nos preparávamos para um transplante, recebi o telefonema da mãe do doador, que me pediu, aos prantos, que eu cuidasse bem dos órgãos do seu filho. Comovido, lhe disse que não pretendia consolá-la porque, sendo pai, sabia que a dor que ela sentia era irremediável, mas que gostaria que ela pensasse que quatro mães estavam sendo poupadas da mesma dor que lhe varava o coração.
Trinta e cinco anos depois, ela veio pessoalmente ao hospital para me relembrar essa história e acrescentar que, quando viu o filho morto, só pensava em se matar, e que a vida dela tinha sido salva porque eu dera um sentido ao seu sofrimento. Esse é o sentimento que deve ocupar o coração destroçado de quem, no limite de uma dor atroz, ainda consegue pensar no próximo. Não consigo imaginar um gesto de amor maior do que esse.
Como o senhor explicaria de forma simples a importância da doação de órgãos para salvar vidas?
O transplante é uma modalidade terapêutica que depende da sociedade para que ela mesma seja socorrida. O verdadeiro significado de soberania, que define um país civilizado, impõe essa percepção: somos seres gregários e a nossa sobrevivência poderá, a qualquer momento, depender da ajuda de alguém. Se a dor do outro não lhe afeta, quem precisa de ajuda é você.
Quais avanços o senhor acredita que ainda veremos na área dos transplantes nos próximos anos?
Esta é uma área efervescente na ciência médica. Quando olhamos para trás, ficamos perplexos com o quanto os nossos cuidados eram primitivos há poucas décadas. A qualificação progressiva das técnicas de preservação do órgão antes de ser implantado, a prevenção de complicações e a qualificação da imunoterapia parecem hoje apenas preâmbulos para os progressos que se anunciam no futuro. Os transplantes com doadores vivos, por exemplo, usados em situações especiais, têm salvado muitas vidas ao redor do mundo. A produção de órgãos geneticamente manipulados se anuncia com grande entusiasmo e, na minha opinião, parece mais próxima da realidade do que o xenotransplante, outro projeto deslumbrante.
Como o Brasil pode ampliar o número de doadores e transplantes realizados?
A escassez de doadores foi e continua sendo o fator mais limitante da realização de transplantes. A tendência irrefreável de uma população cada vez mais longeva favorece naturalmente o aumento das doenças crônicas, muitas delas passíveis de tratamento com transplante.
Infelizmente, o número de candidatos ao transplante tem superado em muito a disponibilidade de doadores, e esse descompasso tem se mantido, o que justifica o desespero de quem ocupa essas filas de espera numerosas, com a consciência permanente de quem sabe estar correndo contra o tempo.
Como a doação de órgãos é uma questão cultural, todas as estratégias de divulgação dessa necessidade devem ser estimuladas.
Provavelmente, a medida mais útil seria tornar obrigatório o ensino, nas escolas de primeiro e segundo grau, dos fundamentos básicos da doação: no que consiste a morte cerebral e como se processa a seleção de quem só continuará vivendo com a substituição de um órgão vital comprometido.
Que conselho o senhor daria para os jovens médicos que desejam seguir na área de transplantes?
É uma tarefa fascinante a de acompanhar a transformação da vida de alguém que fora forçado a renunciar às coisas que constituem o modelo elementar de felicidade e que, depois do transplante, fica eufórico e deslumbrado com a possibilidade de resgatar uma juventude desperdiçada.
Como se pode supor, é uma missão exigente de entrega e disponibilidade, que renova em cada caso a certeza de que não dá para ser médico pela metade. O processo todo gera uma energia poderosa, que provavelmente explica por que nunca vi um transplantador bocejando nas frequentes madrugadas. Suspeito que seja a mesma energia que identifica os que estão convencidos de que viver ou durar estão separados por um abismo de apatia e desânimo. Os que entenderem essa diferença serão bem-vindos ao barco.
A trajetória do Dr. José de Jesus Camargo mostra como a ciência e a dedicação de profissionais comprometidos podem transformar a vida de milhares de pessoas. Neste Dia Nacional da Doação de Órgãos, a SBPT reforça a importância de ampliar a conscientização sobre esse gesto de solidariedade que possibilita a vida. Cada doador e cada família que decide dizer “sim” à doação se torna parte fundamental dessa corrente de esperança, que promove o avanço da medicina e oferece novas oportunidades a quem aguarda por um transplante.

