{"id":34421,"date":"2025-09-26T21:03:10","date_gmt":"2025-09-26T21:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/sbpt.org.br\/portal\/?p=34421"},"modified":"2025-09-26T21:03:10","modified_gmt":"2025-09-26T21:03:10","slug":"no-dia-nacional-da-doacao-de-orgaos-a-sbpt-reforca-a-importancia-deste-ato-de-solidariedade-que-salva-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sbpt.org.br\/portal\/no-dia-nacional-da-doacao-de-orgaos-a-sbpt-reforca-a-importancia-deste-ato-de-solidariedade-que-salva-vidas\/","title":{"rendered":"No Dia Nacional da Doa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os, a SBPT refor\u00e7a a import\u00e2ncia deste ato de solidariedade que salva vidas"},"content":{"rendered":"\n<p>No Dia Nacional da Doa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os, celebrado em 27 de setembro, o Brasil refor\u00e7a a import\u00e2ncia desse gesto solid\u00e1rio que pode transformar a dor em esperan\u00e7a e salvar m\u00faltiplas vidas. A data tem como objetivo conscientizar a sociedade sobre a relev\u00e2ncia da doa\u00e7\u00e3o e estimular cada vez mais fam\u00edlias a autorizarem esse ato de amor, capaz de oferecer uma nova oportunidade a quem aguarda na fila por um transplante.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sbpt.org.br\/portal\/\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-26-at-16.02.22.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-34424 alignright\" src=\"https:\/\/sbpt.org.br\/portal\/\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-26-at-16.02.22-240x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"300\"><\/a>Neste contexto, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) traz uma entrevista especial com o cirurgi\u00e3o tor\u00e1cico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, Dr. Jos\u00e9 de Jesus Camargo, que \u00e9 refer\u00eancia mundial e pioneiro no transplante de pulm\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria, dedicou-se a transformar a vida de pacientes com doen\u00e7as graves por meio dos transplantes e contribuiu para consolidar o pa\u00eds no cen\u00e1rio internacional da medicina.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, ele compartilha as motiva\u00e7\u00f5es que o levaram a se dedicar \u00e0 \u00e1rea, relembra momentos hist\u00f3ricos e fala sobre os desafios e avan\u00e7os que ainda est\u00e3o por vir no campo dos transplantes.<\/p>\n<p><strong>O que o motivou a se dedicar aos transplantes de pulm\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A reminisc\u00eancia mais antiga remonta ao segundo ano de resid\u00eancia, quando encontrei numa gaveta do consult\u00f3rio do meu Mestre um jornal de 1967, que relatava a realiza\u00e7\u00e3o do primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o, na \u00c1frica do Sul. Quando quis saber dele por que guardara aquele jornal, ele disse muito s\u00e9rio: \u201cPorque n\u00f3s ainda vamos transplantar o pulm\u00e3o\u201d. O projeto me pareceu delirante, mas o \u201cn\u00f3s ainda vamos\u201d teve um impacto fant\u00e1stico porque, at\u00e9 ent\u00e3o, eu n\u00e3o tinha nenhuma certeza de que continuaria no Servi\u00e7o, e aquela frase me inclu\u00eda no futuro.<\/p>\n<p>Num segundo momento, j\u00e1 trabalhando como cirurgi\u00e3o de t\u00f3rax, dois fatores foram estimulantes dessa iniciativa: a impot\u00eancia diante de pneumopatas cr\u00f4nicos e a descri\u00e7\u00e3o dos primeiros resultados bem-sucedidos do transplante pulmonar em Toronto.<\/p>\n<p><strong>Como foi a experi\u00eancia de realizar o primeiro transplante de pulm\u00e3o da Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p>Foi um trabalho meticuloso que exigiu, para come\u00e7ar, a prepara\u00e7\u00e3o de uma Unidade de Terapia Intensiva minimamente compat\u00edvel com a magnitude do procedimento. Como experi\u00eancia profissional foi inesquec\u00edvel porque, do ponto de vista t\u00e9cnico, t\u00ednhamos feito uma prepara\u00e7\u00e3o adequada em laborat\u00f3rio e nos sent\u00edamos seguros, mas pesava sempre a certeza de que, depois dessa aventura rumo ao desconhecido, nunca mais ser\u00edamos os mesmos, para o bem ou para o mal. Essa sensa\u00e7\u00e3o provocava um medo natural e a sensa\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 n\u00e3o paralisamos pela quantidade de adrenalina circulante.<\/p>\n<p>E, antes de tudo, t\u00ednhamos um homem jovem, 27 anos, pai de dois filhos pequenos, que s\u00f3 sairia do hospital se f\u00f4ssemos capazes de substituir o seu pulm\u00e3o destru\u00eddo. Ali\u00e1s, ele se revelou o candidato ideal pelo somat\u00f3rio de coragem, determina\u00e7\u00e3o de viver e confian\u00e7a, muita confian\u00e7a. Foi, sem d\u00favida, um grande privil\u00e9gio t\u00ea-lo como primeiro paciente.<\/p>\n<p><strong>Quais foram os maiores desafios enfrentados naquele momento hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que tudo, a inexperi\u00eancia com o procedimento em humanos e a consci\u00eancia de que a nossa terapia intensiva era prec\u00e1ria em compara\u00e7\u00e3o com as melhores UTIs dos hospitais de refer\u00eancia no exterior. Vendo retrospectivamente, n\u00e3o t\u00ednhamos nenhum dos recursos mais sofisticados de suporte hemodin\u00e2mico que hoje usamos como rotina e est\u00e1vamos limitados a tr\u00eas drogas antirrejei\u00e7\u00e3o, de modo que, se o paciente se revelasse precocemente um rejeitador, as chances de sobreviv\u00eancia eram escassas.<\/p>\n<p>Talvez amparados pela sorte de principiantes, conseguimos que nove dos nossos dez primeiros transplantes deixassem o hospital em boas condi\u00e7\u00f5es. Isso naturalmente significou um grande est\u00edmulo para a continuidade do programa.<\/p>\n<p><strong>O que significa para o senhor ver a vida de tantas pessoas transformadas pela doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os?<\/strong><\/p>\n<p>Acompanhar a vida de pacientes vivendo no limite de sofrimento e conseguir reabilit\u00e1-los para a vida normal \u00e9, para mim, a melhor sensa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 experimentei sendo m\u00e9dico.<\/p>\n<p><strong>Qual mensagem o senhor deixaria para as fam\u00edlias que, em meio \u00e0 dor, decidem doar?<\/strong><\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria curta pode responder bem a essa pergunta: h\u00e1 muitos anos, enquanto nos prepar\u00e1vamos para um transplante, recebi o telefonema da m\u00e3e do doador, que me pediu, aos prantos, que eu cuidasse bem dos \u00f3rg\u00e3os do seu filho. Comovido, lhe disse que n\u00e3o pretendia consol\u00e1-la porque, sendo pai, sabia que a dor que ela sentia era irremedi\u00e1vel, mas que gostaria que ela pensasse que quatro m\u00e3es estavam sendo poupadas da mesma dor que lhe varava o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trinta e cinco anos depois, ela veio pessoalmente ao hospital para me relembrar essa hist\u00f3ria e acrescentar que, quando viu o filho morto, s\u00f3 pensava em se matar, e que a vida dela tinha sido salva porque eu dera um sentido ao seu sofrimento. Esse \u00e9 o sentimento que deve ocupar o cora\u00e7\u00e3o destro\u00e7ado de quem, no limite de uma dor atroz, ainda consegue pensar no pr\u00f3ximo. N\u00e3o consigo imaginar um gesto de amor maior do que esse.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor explicaria de forma simples a import\u00e2ncia da doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os para salvar vidas?<\/strong><\/p>\n<p>O transplante \u00e9 uma modalidade terap\u00eautica que depende da sociedade para que ela mesma seja socorrida. O verdadeiro significado de soberania, que define um pa\u00eds civilizado, imp\u00f5e essa percep\u00e7\u00e3o: somos seres greg\u00e1rios e a nossa sobreviv\u00eancia poder\u00e1, a qualquer momento, depender da ajuda de algu\u00e9m. Se a dor do outro n\u00e3o lhe afeta, quem precisa de ajuda \u00e9 voc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Quais avan\u00e7os o senhor acredita que ainda veremos na \u00e1rea dos transplantes nos pr\u00f3ximos anos?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma \u00e1rea efervescente na ci\u00eancia m\u00e9dica. Quando olhamos para tr\u00e1s, ficamos perplexos com o quanto os nossos cuidados eram primitivos h\u00e1 poucas d\u00e9cadas. A qualifica\u00e7\u00e3o progressiva das t\u00e9cnicas de preserva\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o antes de ser implantado, a preven\u00e7\u00e3o de complica\u00e7\u00f5es e a qualifica\u00e7\u00e3o da imunoterapia parecem hoje apenas pre\u00e2mbulos para os progressos que se anunciam no futuro. Os transplantes com doadores vivos, por exemplo, usados em situa\u00e7\u00f5es especiais, t\u00eam salvado muitas vidas ao redor do mundo. A produ\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os geneticamente manipulados se anuncia com grande entusiasmo e, na minha opini\u00e3o, parece mais pr\u00f3xima da realidade do que o xenotransplante, outro projeto deslumbrante.<\/p>\n<p><strong>Como o Brasil pode ampliar o n\u00famero de doadores e transplantes realizados?<\/strong><\/p>\n<p>A escassez de doadores foi e continua sendo o fator mais limitante da realiza\u00e7\u00e3o de transplantes. A tend\u00eancia irrefre\u00e1vel de uma popula\u00e7\u00e3o cada vez mais longeva favorece naturalmente o aumento das doen\u00e7as cr\u00f4nicas, muitas delas pass\u00edveis de tratamento com transplante.<\/p>\n<p>Infelizmente, o n\u00famero de candidatos ao transplante tem superado em muito a disponibilidade de doadores, e esse descompasso tem se mantido, o que justifica o desespero de quem ocupa essas filas de espera numerosas, com a consci\u00eancia permanente de quem sabe estar correndo contra o tempo.<\/p>\n<p>Como a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os \u00e9 uma quest\u00e3o cultural, todas as estrat\u00e9gias de divulga\u00e7\u00e3o dessa necessidade devem ser estimuladas.<\/p>\n<p>Provavelmente, a medida mais \u00fatil seria tornar obrigat\u00f3rio o ensino, nas escolas de primeiro e segundo grau, dos fundamentos b\u00e1sicos da doa\u00e7\u00e3o: no que consiste a morte cerebral e como se processa a sele\u00e7\u00e3o de quem s\u00f3 continuar\u00e1 vivendo com a substitui\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o vital comprometido.<\/p>\n<p><strong>Que conselho o senhor daria para os jovens m\u00e9dicos que desejam seguir na \u00e1rea de transplantes?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma tarefa fascinante a de acompanhar a transforma\u00e7\u00e3o da vida de algu\u00e9m que fora for\u00e7ado a renunciar \u00e0s coisas que constituem o modelo elementar de felicidade e que, depois do transplante, fica euf\u00f3rico e deslumbrado com a possibilidade de resgatar uma juventude desperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p>Como se pode supor, \u00e9 uma miss\u00e3o exigente de entrega e disponibilidade, que renova em cada caso a certeza de que n\u00e3o d\u00e1 para ser m\u00e9dico pela metade. O processo todo gera uma energia poderosa, que provavelmente explica por que nunca vi um transplantador bocejando nas frequentes madrugadas. Suspeito que seja a mesma energia que identifica os que est\u00e3o convencidos de que viver ou durar est\u00e3o separados por um abismo de apatia e des\u00e2nimo. Os que entenderem essa diferen\u00e7a ser\u00e3o bem-vindos ao barco.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do Dr. Jos\u00e9 de Jesus Camargo mostra como a ci\u00eancia e a dedica\u00e7\u00e3o de profissionais comprometidos podem transformar a vida de milhares de pessoas. Neste Dia Nacional da Doa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os, a SBPT refor\u00e7a a import\u00e2ncia de ampliar a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre esse gesto de solidariedade que possibilita a vida. Cada doador e cada fam\u00edlia que decide dizer \u201csim\u201d \u00e0 doa\u00e7\u00e3o se torna parte fundamental dessa corrente de esperan\u00e7a, que promove o avan\u00e7o da medicina e oferece novas oportunidades a quem aguarda por um transplante.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia Nacional da Doa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os, celebrado em 27 de setembro, o Brasil refor\u00e7a a import\u00e2ncia desse gesto solid\u00e1rio que pode transformar a dor em esperan\u00e7a e salvar m\u00faltiplas vidas. A data tem como objetivo conscientizar a sociedade sobre a relev\u00e2ncia da doa\u00e7\u00e3o e estimular cada vez mais fam\u00edlias a autorizarem esse ato de amor, capaz de oferecer uma nova oportunidade a quem aguarda na fila por um transplante. 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