História

História – Nossa nova Sociedade

No dia 18 de Outubro de 1978 nasceu a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Nasceu, talvez não seja o verbo mais apropriado. Ela é, na realidade, o somatório da experiência, dos sucessos, das lutas e da grandeza alcançados pelas duas entidades que, em passado maior, congregaram os especialistas do pulmão de nossa terra: a Federação das Sociedades Brasileiras de Tuberculose e Doenças Respiratórias e a Sociedade Brasileira de Pneumologia.

A fusão destes dois gigantes tornou-se um imperativo em nossa vida associativa. O ritmo crescente das conquistas científicas e a cada vez mais árdua competição pela excelência profissional tornavam clara a necessidade de uma instituição que reunisse os esforços de todos e pudesse, por mais e mais expressiva, dar-nos armas para chegar às vitórias buscadas.

Não é fácil a fusão de duas Sociedades com história já escrita e com personalidade já definida. Há muito de voluntariosidade, de desprendimento, de abertura espiritual, para que se chegue a uma efetiva união. Os muitos meses, melhor ainda os anos, em que a idéia desde a fusão foi acalentada e trabalhada constituíram rico testemunho de até que ponto os pneumologistas e os tisiólogos do Brasil são capazes de renunciar a prendas individuais em favor de uma coletividade maior. Foi neste espírito que nos permitiu chegar a Sociedade que hoje a todos nós congrega: a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Nossa nova Sociedade conserva o nome as palavras mais características de suas ancestrais: Pneumologia e Tisiologia. Adota a data de fundação da mais antiga. E o logotipo consagrado: a cruz de Lorena. A revista também manteve a tradição: chamar-se-á Jornal de Pneumologia, guardando a nomenclatura do órgão de divulgação da Sociedade Brasileira de Pneumologia. A manutenção deste nome não só faz justiça à expressividade da revista como preserva sua antigüidade, fundamental para seu cadastramento em registros internacionais.

Durante a gestão de sua primeira Diretoria, a nova Sociedade terá por sede a cidade de Porto Alegre. Seu endereço é Avenida Independência, 330, Conj. 203, Cx. Postal 705, 90.000 ? Porto Alegre, RS. Seu fone (0512) 21-3508.

Ao longo deste mandato caber-nos-á a honrosa tarefa de estruturar as bases da vida administrativa e científica da Sociedade. Estaremos estudando a localização da sede definitiva que deverá vigorar a partir do próximo biênio. Estaremos definindo as regras para concessão do Título de Especialista em Pneumologia e Tisiologia assim como o de Cirurgião Torácico. As linhas de ação pelas quais a Sociedade estimulará o ensino e a pesquisa no campo da Pneumologia. Finalmente, estaremos envidando esforços para assegurar o melhor padrão à prática da especialidade.

Mário Rigatto
Presidente
(retirado do Jornal de Pneumologia – Vol. 04 – Nº 04 – 1978)

Pneumologistas unidos numa única sociedade. Para quê?

O fato mais importante dos Congressos de Pneumologia e Tisiologia de Porto Alegre, por certo foi a fusão da Sociedade Brasileira de Pneumologia com a Federação Brasileira de Tuberculose sob o nome de Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Temos agora uma Sociedade nacional única e forte, congregando aproximadamente mil colegas. E agora? Com toda a crise de educação médica, estamos hoje, em qualidade e em número, melhor que há 10 anos atrás. E as sociedades médicas têm muito a ver com isto, ao organizarem congressos e cursos, editarem revistas e realizarem concursos para a concessão de títulos de especialistas.

Contudo, apesar da qualificação médica, do arsenal diagnóstico e terapêutico, as doenças cardiocirculatórias e pulmonares estão aumentando. Bronquite, enfisema, asma, câncer do pulmão e pneumonias são cada vez mais freqüentes. Mesmo a Tuberculose, não obstante o BCG intradérmico e a eficiência das drogas disponíveis, continua uma doença não controlada.

Estamos presenciando, no presente século, radical mudança quanto à gênese dos processos mórbidos. Há o que se poderia chamar uma patologia urbana, não apenas uma relação às doenças, como em relação aos traumatismos. Os acidentes de trabalho, nesses 80 anos, têm causado mais vítimas que as duas grandes guerras mundiais. Os acidentes de trânsito, os crimes e suicídios, constituem hoje fatores de mortalidade de mais importância que qualquer das grandes epidemias de peste e cólera havidas. À medida que o homem adquire controle sobre os germes perde a batalha para as doenças causadas pelo seu próprio modo de viver.

Ocorre que os atos médicos ou mesmo a ação dos órgãos específicos de saúde do Estado são individualizados ou parciais, incapazes de envolver todos os aspectos da doença que continua a ser realimentar socialmente, na medida em que os fatores causais permanecem intocados. Aí está o tabagismo, a poluição do ar e as poeiras inaladas nos ambientes de trabalho, a medicamentalização excessiva.

Individualmente, pouco podemos fazer. Limitamos a agir na ?periferia dos fenômenos mórbidos?. Mas como Sociedade de Pneumologia nosso campo se amplia e poderá vir a ter um peso, não fundamental é certo, mas importante, na preservação da Saúde Pública.

Herval Pinheiro

Editorial

O desenvolvimento de qualquer ciência está subordinado à sua necessidade social. A pneumologia não foge à regra. Ela existe porque as doenças do pulmão impõem a necessidade de quem as possa prevenir e adequadamente tratar.

Mas maturidade de uma especialidade se mede pela unidade de propósitos dos que a exercem. E a criação da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia é o seu testemunho.

Há cerca de 10 anos éramos uns poucos a exercer o que poderíamos chamar uma subespecialidade. Hoje somos centenas. Este crescimento reflete os problemas de uma jovem sociedade industrial com as doenças típicas das grandes concentrações urbanas, onde as pneumonias representam um contingente bem expressivo. O hábito de fuma tem se difundido, particularmente entre as mulheres e adolescentes. A poluição do ar atinge níveis preocupantes. Crescem os números de acidentes de trabalho e de trânsito e as doenças profissionais.

Esses problemas são maiores que nossa atual capacidade de resolvê-los. Temos que acelerar nossos passos se ainda queremos somas nossas forças aos que lutam pela preservação do meio ambiente, pelo uso racional de medicamentos e medidas terapêuticas e contra hábitos reconhecidamente prejudiciais à saúde. Ao esforço individual de cada um no campo da medicina curativa, temos que somar o trabalho coletivo, participando ativamente nos programas de medicina preventiva na área de pneumologia.

Contudo, nossa função social não termina na prevenção e tratamento das pneumonias. Precisamos ensinar para que outros continuem a fazê-lo e pesquisar para que esta assistência se faça progressivamente melhor.

Parte substancial desse trabalho é realizado dentro das instituições de ensino e pesquisa. Mas nem todos podem permanecer dentro ou mesmo ligados a essas instituições. E elas não dispõem de estrutura para ir até os profissionais que diplomou. Esses, obrigados à prática diária, em ambulatórios, postos, consultórios e hospitais se distanciam progressivamente de suas fontes de formação. O desnível de oportunidade e a dificuldade de acesso aos recursos técnicos acentuam o divórcio entre as escolas médicas e a prática da medicina, fenômeno mais agudo para os que se fixam no interior.

A lacuna tem sido preenchida pelas sociedades médicas que se colocam como pontes de intercâmbio entre as escolas e os médicos, promovendo cursos de atualização, congressos, mesas redondas e debates e publicando revistas científicas.

O caminho que estamos percorrendo é natural. Não há o que inventar. Estamos nos valendo da experiência vivida por outras especialidades e por outros colegas. O fato de conhecermos esta experiência explica a rapidez do crescimento da Sociedade Brasileira de Pneumologia.

Em doze meses ultrapassamos aos duzentos sócios. Criamos várias secções regionais, cada uma delas iniciando um trabalho sistematizado de atualização e informação. O ? I Congresso Brasileiro de Pneumologia e Tisiologia? e a ?II Jornada Internacional de Pneumologia? são acontecimentos promissores.

A publicação do primeiro número do ?Jornal de Pneumologia? encerra um ano bastante produtivo. É o nosso projeto mais ambicioso e caro.

Não temos ilusões e reconhecemos as dificuldades em manter uma revista. Neste primeiro ano tiramos sua primeira edição. Nosso plano é fazê-la circular trimestralmente para que possamos indexá-la e torná-la internacionalmente reconhecida. Isto está na dependência de cada pneumologista e sócio, na tomada de consciência de que a revista é sua e deve ser mantida com crescente nível técnico e absoluta independência editorial. E seu veículo de atualização e forma de diálogo. O JP reflete o nível nacional da especialidade. E sua existência é a maior prova de maturidade da especialidade que exercemos.

extraído do Jornal de Pneumologia – Vol. 01 – Nº 01 – 1975